Neste 1º de setembro, Dia do Profissional de Educação Física, a trajetória de Marisa Sanches ajuda a mostrar como a profissão pode ir muito além das quadras, piscinas e práticas esportivas. Ao longo de décadas de atuação em Assis, ela fez da Educação Física um instrumento de ensino, inclusão, desenvolvimento e transformação.
Professora conhecida por diferentes gerações de assisenses, Marisa atuou em escolas, na antiga Faculdade de Educação Física de Assis, no IEDA, na APAE, em projetos educacionais e teve na natação uma das marcas mais fortes de sua carreira. Foi também responsável pela tradicional escola Foquinha, instalada na residência da família, na Avenida Rui Barbosa, com entrada lateral pela Rua Dom José Lázaro Neves.
O esporte presente desde a infância
A ligação com o esporte começou ainda na infância. Muito pequena, Marisa praticou judô no Kodama e recorda que era a única menina entre os alunos.
Uma das histórias que guarda daquele período aconteceu durante uma competição em Cândido Mota, quando venceu um garoto. Em uma época em que a presença feminina em determinadas modalidades esportivas ainda era vista de outra maneira, o episódio acabou virando motivo de brincadeiras entre os colegas do menino, que abandonou as aulas.
Depois vieram outras experiências. Marisa praticou atletismo, natação e, durante a vida escolar, dedicou-se também ao vôlei.
Ela conta que chegou a receber um convite para participar de uma seleção de atletas que poderiam integrar a Seleção Brasileira de Vôlei, mas acabou não seguindo adiante.
A escolha pela Educação Física
Foi ao terminar o ensino médio que percebeu que poderia transformar aquilo que sempre gostou de fazer em profissão.
“Quando descobri que existia faculdade de Educação Física, pensei: ‘isso para mim nem é estudar, é brincar, é me divertir’. Era tudo de bom”, relembra.
A escolha, entretanto, nem sempre foi compreendida.
Marisa recorda que um professor chegou a questionar sua decisão e sugeriu cursos como Medicina ou Direito, considerados, naquele período, caminhos profissionais de maior prestígio.
Ela não mudou de ideia.
“Eu falei: ‘é o que eu gosto, é o que eu quero e é o que eu vou fazer’.”
Em 1984, ingressou na Escola de Educação Física de Assis e concluiu a graduação em 1986.
A formação não parou ali. Marisa graduou-se também em Pedagogia, em 1988, e posteriormente fez especializações em Didática Geral e Psicopedagogia Clínica e Institucional. Em 2004, realizou ainda aperfeiçoamento em Equitação na Equoterapia pela Associação Nacional de Equoterapia.
Foquinha marcou gerações em Assis
Foi ainda como estudante de Educação Física que começou uma das histórias mais conhecidas de sua trajetória.
Na residência dos pais, na Avenida Rui Barbosa, havia uma piscina. A partir dela surgiu a ideia de começar a dar aulas de natação. Nascia ali a escola Foquinha.
Marisa estava no início da faculdade e admite que, naquele momento, conhecia o esporte, mas ainda estava aprendendo a ensinar.
“Saber nadar é uma coisa, saber ensinar é outra”, lembra.
O receio inicial foi dando lugar à experiência. A escolinha cresceu, recebeu muitos alunos e contou também com a passagem de outros profissionais ao longo dos anos. A Foquinha acabou se transformando em uma das referências de sua trajetória profissional e ficou na memória de muitas famílias de Assis.
De aluna a professora universitária
Depois de concluir a graduação, Marisa recebeu o convite para voltar à própria faculdade, desta vez como professora.
A natação tornou-se sua principal área de atuação acadêmica. Ela permaneceu por aproximadamente 26 anos na instituição, acompanhando diferentes gerações de estudantes de Educação Física.
Com as mudanças na grade curricular, também passou a trabalhar com conteúdos relacionados à informática e às novas tecnologias.
A experiência nessa área ocorreu paralelamente ao trabalho desenvolvido no Núcleo de Tecnologia da Secretaria Municipal de Educação, durante o processo de implantação dos laboratórios de informática nas escolas.
Ao longo da carreira, Marisa também passou por diferentes unidades de ensino de Assis, entre elas Coraly Júlia Gonçalves Carneiro, João de Castro, Léia Rosa e Guiomar.
Educação Física e inclusão na APAE
Algumas das experiências mais marcantes aconteceram justamente quando a Educação Física encontrou a inclusão.
Na APAE de Assis, Marisa inicialmente atuou a partir de sua formação em Pedagogia. Trabalhou como monitora, acompanhando transporte e auxiliando os alunos em diferentes atividades do cotidiano.
Posteriormente, voltou à instituição como professora de Educação Física e passou a desenvolver trabalhos também na piscina.
Foi então que surgiu um desafio inesperado.
A instituição possuía instrumentos musicais que haviam sido recebidos por doação, mas permaneciam guardados. A proposta era formar uma fanfarra com os alunos.
Marisa aceitou.
Sem saber inicialmente quais alunos teriam maior facilidade com ritmo e coordenação, improvisou caixas de papelão e começou a reproduzir pequenas frases musicais para que eles repetissem.
Assim foram escolhidos os integrantes.
Nos ensaios, o contato visual era fundamental. Marisa criou sinais para ajudar os alunos a retomarem o ritmo sempre que alguém se perdia durante a execução.
O desfile que ficou na memória
O resultado apareceu no primeiro grande desfile pelas ruas de Assis.
“Fomos aplaudidos de cabo a rabo, a avenida inteira. Chegamos à Praça da Catedral e tinha pai chorando. É uma lembrança inesquecível que vou levar para o túmulo”, conta.
A fanfarra também participou de apresentações em cidades da região, entre elas Tarumã e Cândido Mota.
Quando Marisa deixou a função na APAE para trabalhar no Núcleo de Tecnologia Educacional, não quis simplesmente abandonar o projeto. Durante um período, continuou comparecendo voluntariamente para ajudar nos ensaios.
Sua trajetória profissional incluiu ainda a equoterapia. A familiaridade com o meio rural e com cavalos contribuiu para que participasse do projeto quando ele foi implantado em Assis.
Foram diferentes caminhos dentro de uma mesma profissão.
Aposentadoria não significou parar de ensinar
Marisa permaneceu ligada ao ensino superior até 2013 e se aposentou em 2015. Mas a aposentadoria não conseguiu afastá-la completamente da Educação Física.
Depois de se casar com Uraci Botelho e mudar-se para a região de Agicê, voltou a olhar para a água como uma possibilidade de ensinar.

A partir da vontade do marido de praticar atividade física na piscina, Marisa idealizou uma estrutura artesanal para possibilitar exercícios aquáticos.
Primeiro chegaram algumas amigas interessadas em hidroginástica. Depois apareceram crianças da região querendo aprender a nadar.
Marisa decidiu ensiná-las gratuitamente.
“Eu pensava: são 26 anos de conhecimento acumulado. É até pecado levar isso para o túmulo e não compartilhar com a humanidade. A gente sabe o bem que isso faz para a saúde”, afirma.
Criatividade para continuar ensinando
Quando faltava equipamento, entrava em cena a experiência acumulada ao longo de tantos anos.
Garrafas PET serviam como material para as aulas. Canos de PVC eram adaptados para exercícios. Peças de EVA ajudavam no trabalho pedagógico. Outros objetos eram transformados conforme a necessidade das crianças.

Não havia estrutura sofisticada, mas existiam conhecimento, criatividade e vontade de ensinar.
A iniciativa acabou chamando a atenção de antigos alunos e ganhou repercussão nas redes sociais. Segundo Marisa, sua história chegou inclusive ao conhecimento de uma produtora do programa Fantástico, interessada na experiência desenvolvida por ela.
Uma trajetória que atravessa gerações
Hoje, aposentada e sem atuar mais em sala de aula, Marisa olha para uma trajetória que atravessou diferentes momentos da Educação Física em Assis.
Da menina que praticava judô entre garotos à professora universitária; da Foquinha aos projetos da APAE; da natação à equoterapia; das escolas às atividades oferecidas gratuitamente depois da aposentadoria, sua história mostra quantas possibilidades cabem dentro da profissão.
Neste Dia do Profissional de Educação Física, a experiência de Marisa Sanches também evidencia algo que acompanhou toda a sua carreira: mais do que ensinar movimentos, técnicas ou modalidades, o profissional pode participar diretamente da formação, da autoestima, da autonomia e das conquistas de outras pessoas.
Para Marisa, esse retorno sempre foi maior do que qualquer recompensa material.
“A alegria que a gente enxerga em quem aprende o que a gente ensina não tem dinheiro que pague.”
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