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Entre o debate e o ódio: o preço que Assis está pagando

A intolerância cresce, o diálogo diminui e quem perde é toda a sociedade.

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Entre o debate e o ódio: o preço que Assis está pagando

Há mais de duas décadas no jornalismo, posso afirmar com convicção: nunca vi Assis atravessar um momento político tão delicado quanto o atual.

Sou do tempo do jornalismo analógico. As notícias eram lidas no jornal impresso e comentadas nas mesas dos bares, nas calçadas, nas rodas de amigos e nos encontros de família. Havia divergências, discussões acaloradas e posições políticas bem definidas. Mas, na maioria das vezes, havia também um ingrediente que parece estar desaparecendo: o respeito.

O contraditório sempre existiu e faz parte da democracia. Em todas as administrações houve apoiadores, opositores, críticas e elogios. Nunca existiu unanimidade, nem deveria existir.

Nenhum prefeito que passou pelo gabinete da prefeitura teve aprovação total. Sempre houve cobranças, questionamentos e insatisfação. Afinal, criticar faz parte da essência humana. A grande diferença é que as divergências dificilmente ultrapassavam os limites do respeito e da convivência.

Hoje, a discussão migrou para as redes sociais. E, junto com a velocidade da informação, veio também a velocidade da intolerância.

Vivemos a cultura do cancelamento. Antes de publicar um comentário, muitas pessoas pensam duas vezes. Não porque reflitam melhor sobre o que vão dizer, mas pelo medo de se tornarem alvo de uma avalanche de ofensas, ataques pessoais e julgamentos impiedosos. O debate de ideias, em muitos casos, foi substituído pelo ataque à pessoa.

E há um agravante: os perfis falsos, os chamados "fakes".

Atrás de uma fotografia bonita, de uma flor, de um personagem ou de um nome inventado, escondem-se pessoas que atacam, difamam e espalham desinformação sem assumir qualquer responsabilidade. O anonimato transformou-se em escudo para a covardia.

Infelizmente, esse clima de radicalização deixou de ser apenas virtual.

Recentemente, Assis presenciou um atentado contra um vereador. Um episódio gravíssimo, sem precedentes na história do município. As investigações avançaram, pessoas foram presas e a Polícia Civil continua apurando o caso. Independentemente do desfecho judicial, o fato, por si só, já representa um alerta sobre o nível de intolerância a que chegamos.

Os próprios partidos políticos também vivem uma crise de identidade. As siglas, sozinhas, já não conseguem definir o caráter, a competência ou os valores de quem as integra. Talvez tenha chegado o momento de olharmos menos para os partidos e mais para as pessoas. Afinal, são elas que tomam decisões, administram recursos públicos e respondem por seus atos.

Quando a política deixa de ser um espaço de ideias e passa a alimentar o ódio, toda a sociedade perde.

Não importa de que lado alguém esteja. Quem apoia um governo tem o direito de se manifestar. Quem critica também. A democracia existe justamente para garantir essa pluralidade. O problema começa quando o adversário passa a ser tratado como inimigo.

Nesse ambiente, ninguém ganha.

Perde a política, que deixa de discutir soluções para discutir pessoas. Perde a imprensa, constantemente pressionada a escolher lados quando sua obrigação é informar. Perdem as instituições, que passam a ser desacreditadas. E, principalmente, perde a população.

Enquanto a cidade se divide em torcidas organizadas, problemas reais continuam esperando por soluções: saúde, educação, infraestrutura, segurança, geração de empregos e qualidade de vida.

Assis precisa recuperar a capacidade de dialogar.

Discordar faz parte da democracia. O desrespeito, não.

A crítica constrói. O ódio destrói.

Que possamos olhar menos para as siglas e mais para as pessoas. Menos para as paixões políticas e mais para aquilo que realmente importa: o futuro da nossa cidade. Porque, depois de cada eleição, todos continuamos morando na mesma Assis, cruzando as mesmas ruas e compartilhando o mesmo desejo de viver em uma cidade melhor.


Dag Marciliano
Jornalista e editora do Abordagem Notícias

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