Hoje quero falar sobre um tema que não conheço apenas pelos livros ou pelas pesquisas. É um assunto que faz parte da rotina da minha família há alguns anos e que mudou, inclusive, a maneira como passei a olhar para muitas situações da vida.
Quando eu e minha esposa descobrimos o autismo do nosso filho, começamos uma caminhada que acredito ser muito parecida com a de tantas outras famílias.
Vieram as dúvidas, os medos, as perguntas sobre o futuro e, principalmente, a necessidade de entender.
Começamos a pesquisar, ler, assistir a conteúdos, conversar com profissionais e conhecer melhor esse universo. Palavras que antes pareciam distantes passaram a fazer parte da nossa rotina: desenvolvimento, comunicação, comportamento, sensorial, terapias, inclusão.
E quanto mais aprendemos, mais percebemos o quanto ainda existe desinformação sobre o autismo.
É justamente por isso que resolvi escrever.
Não como médico ou especialista. Escrevo como pai. Como alguém que precisou aprender para compreender melhor o próprio filho e que acredita que compartilhar um pouco dessa experiência também pode ajudar outras pessoas a enxergarem o autismo de outra maneira.
Uma das primeiras coisas que uma família precisa ouvir é simples: ninguém tem culpa.
Por muitos anos surgiram teorias que responsabilizavam pais e, principalmente, mães pelo autismo dos filhos.
Hoje sabemos que isso não tem fundamento.
As pesquisas mostram que o autismo é uma condição do neurodesenvolvimento, com forte participação de fatores genéticos. Também não existe comprovação de que falta de amor, educação dos pais ou vacinas sejam causas do autismo.
Pode parecer algo óbvio para quem já conhece o assunto, mas ainda existem famílias que escutam comentários como: “isso é falta de limite”, “na minha época não existia isso” ou “essa criança precisava de mais educação”.
E é justamente aí que precisamos substituir julgamento por informação.
Quem observa uma criança por alguns minutos não conhece necessariamente aquilo que está acontecendo. Um barulho que parece normal para nós pode ser extremamente desconfortável para ela. Um ambiente cheio de pessoas, luzes ou sons pode gerar uma sobrecarga. Uma mudança simples na rotina pode representar uma dificuldade enorme.
E, muitas vezes, aquilo que alguém interpreta como “birra” pode ser uma criança tentando comunicar algo da única maneira que consegue naquele momento.
Talvez esse seja um dos maiores aprendizados que o autismo trouxe para a nossa família: antes de julgar, precisamos tentar compreender.
O diagnóstico também não mudou quem era nosso filho.
Ele continuou sendo a mesma criança que amávamos.
O que mudou foi o nosso entendimento.
Passamos a compreender melhor determinadas atitudes, respeitar necessidades que antes talvez não soubéssemos identificar e celebrar conquistas que para outras pessoas podem parecer pequenas.
Em uma família atípica, uma palavra pode ser motivo de festa. Um alimento novo pode representar uma grande vitória. Conseguir permanecer em determinado ambiente, comunicar uma necessidade ou conquistar uma pequena autonomia pode significar meses de trabalho.
Quem olha de fora enxerga o resultado.
A família conhece toda a caminhada que existe por trás dele.
Por isso acredito que inclusão não acontece apenas quando criamos leis, serviços ou atendimentos, embora tudo isso seja fundamental.
A inclusão também começa na forma como olhamos para o outro.
Começa quando uma criança aprende a não zombar do colega diferente. Quando um adulto evita um comentário preconceituoso. Quando uma escola percebe que tratar todos com respeito não significa necessariamente oferecer exatamente a mesma coisa para todos.
Antes do diagnóstico existe uma pessoa.
Existe uma criança com personalidade, preferências, dificuldades, qualidades, sonhos e uma maneira própria de perceber o mundo.
Hoje, depois de tudo o que já vivemos, ainda temos muito a aprender e certamente aprenderemos.
Porque ser pai também é isso.
Quando comecei a pesquisar sobre autismo, queria principalmente entender melhor o meu filho.
Com o tempo percebi que essa caminhada também estava me ensinando a compreender melhor muitas outras famílias.
Talvez seja essa a mensagem que eu gostaria de deixar.
Quando encontrar uma criança autista ou uma família atípica, antes de olhar diferente, comentar ou julgar, tente compreender.
Troque o preconceito pela informação.
Troque a comparação pela compreensão.
Troque o julgamento pela empatia.
Porque uma das maiores lições que meu filho vem me ensinando é que existem muitas maneiras diferentes de enxergar, sentir e viver o mundo.
E todas elas merecem respeito.
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